Arquivos para o mês de Novembro de 2006

ESSE LIVRO NÃO ME SAI DA CABEÇA - desfile de livros realizado por Anna Dantes e Luiza Marcier na encruzilhada das ruas Gonçalves Ledo e Luis de Camões

27/11

Já disse Walter Benjamin: a moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente.
Ela é um salto de tigre em direção ao passado.

Volátil, frívola por seu desapego e, ocasionalmente, superficial devido ao cotidiano ato de vestir, a moda desafia diariamente o olhar de quem a acompanha. Nós, dedicados “followers” (do verbo to fall) e amantes desse sistema, temos que logo poder identificar quais valores são incorporados ao “statement” a cada estação, quem são os novos “players”, quem é quem e onde está afinal este galo que não pára de cantar.

A tendência do anticonformismo é ilustrada pela nova mania de amarrar livros na cabeça

Você consegue beber comer nadar com um livro na cabeça?
Vc consegue pensar com um livro na cabeça?
Sua mente suporta o peso de um livro?
Você equilibra uma idéia?
Você savoir-faire?

Chacal anunciou: Esse livro não me sai da cabeça!
Agradecemos A GENTIL CARIOCA e a todos presentes de body soul and paper.


1. Marcio Botner
– Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes

É composto por 126 capítulos divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

Cervantes buscou inspiração na história de um fidalgo, que nos momentos ociosos (a maior parte do ano, diga-se) se dava para ler livros de cavalaria.

No meio da canela as botas surgem em novos materiais. Mais pesadonas num mix dramático de histórico e punk.

Foi tamanho o desatino que vendeu suas terras para comprar livros. Assim o pobre cavaleiro perdeu o juízo. E na loucura encontrou um motivo para viver...

Peça-chave. Clássico de todas as estações, Dom Quixote se renova em versões românticas ou urbanas para virar item indispensável no seu guarda-livros.


2. Zilda Moscovitch
– Aventura de Alice no país das maravilhas de Lewis Carroll

Publicado em 1865 integra uma trilogia nonsense com Through the Looking-glass e the hunting of the snark.

Lewis Carroll aqui deconstrói o universo das ninfetas. Traz um look mulher-menina que não sabe onde está, quem é e o que significa tudo isso. Brinca com os tamanhos das peças. Alice reveza saias mini, midi e longuete.
Da passarela para o dia a dia a cena neo retrô.

– Você não pode evitar isso – disse o Gato – Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco. Você é louca.
– Como sabe que eu sou louca? – indagou Alice
– Deve ser – disse o Gato – ou não estaria aqui.

3. Mini Kerti
– Rasura de Luiz Zerbini

Quando se está diante de um nome como Luiz Zerbini, a pergunta não deveria ser quem é Luiz Zerbini, mas sim por que Luiz Zerbini.
Desde que assumiu a direção de criação do seu próprio atelier, o gênio revitalizou o olhar sobre livros pret a porter. Rasura é a piece de resistance dessa coleção. Usado na cabeça ou como casaco, capa de chuva jogada displicentemente às costas, ou traje de bodas. O coringa de qualquer biblioteca chega para confundir. Abre sua mente para uma experiência transcendental.

4. César Augusto
– Armadilha para Lamartine de Carlos e Carlos Sussekind

Acham-se aqui reunidos sob o titulo geral de
Armadilha para Lamartine:

A. o Diário da Varandola-Gabinete

B. As “Duas Mensagens do Pavilhão dos Tranqüilos”. Escritas por Lamartine M., no Sanatório Três Cruzes, fazendo-se passar por um outro doente (Ricardinho).

Sussekind abusa de camisas de força estilo bufante.
Isso é o chic do chic do creme de la creme. A roupa apropriada para homens de todos as épocas. Enquanto Comme des Garçons brinca com o guarda-livros masculino, Sussekind valoriza uma elegância mais alienista.


5. Melanie Dimantas

– A Consciência de Zeno, de Ítalo Svevo

O conceito de A Consciência de Zeno é a dissecação da existência íntima. A cintura se liberta, os looks soltos representam uma das terapias mais modernas da psicanálise, o conforto, o despojamento aparecem mesmo em materiais sofisticados sintetizando a procura da cura da incapacidade humana de tomar decisões e ganhar dinheiro. Mesmo que o tratamento se interrompa, cetins e camurças convidam ao toque e ao prazer de um último cigarro.


6. Ana Rocha
– O Normal e o Patológico, de Georges Canguilhem

O estilo de Georges Canguilhem é de grande valia por estar atento às contradições do mundo contemporâneo além de levantar questões relativas aos critérios de cientificidade do mundo médico instituído e universalizado. Assim sendo abusa dos balangandãs para fazer um ritual fashion de adornos radicais. Interroga se existem formas anormais de vida. A moda para Canguilhem é pensada como pura variação de afetos.

7. Ernesto Neto
- Paraíso, de André Sant’anna

Aqueles livros todos secando sob o sol e aquelas mulheres com aquelas bocetas e os homens colocando paus nas bocetas daquelas mulheres e aqueles homens e mulheres pensando em sexo e explicando aquelas palavras.

André Sant’anna se apropria das linhas A e Y uma influência clara do new look Christian Dior.

8. Lili Kemper
– Santa Clara Poltergeist e Básico Instinto, de Fausto Fawcett

Uma obra cítrica inspirada num style bem justinho
Abusa de tecidos colantes e elásticos.
Impera em sentidos, metáforas contundentes e transparências.
Obra de um dos maiores pensadores do mundo contemporâneo.
Sua criação é visionária do hoje.
O futuro será de quem o entende.
Uma tendência forte para um verão mais odisséia no espaço.


9. Dani Fortes
– Madame Bovary, de Gustave Flaubert


Aqui vemos um representante da mais alta costura francesa. Longos parágrafos, descrições largas no estilo Salambô. Foi criado em 1857 influenciado pela obra mais habillê de cores fortes O vermelho e o negro de Stendhal. Flaubert em seguida criou a Maison Bovary que lançou perfumes, vinhos vendidos por todo o mundo. Costumava dizer Madame Bovary c’est moi pour moi!

10. Bruno Ribeiro
– O Estrangeiro, de Albert Camus

Texto da quarta capa: Enriquecida de uma penetrante introdução de Jean-Paul Sartre, esta obra-prima de Albert Camus é de pleno direito incluída na presente coleção.
Estranho, desconcertante, sob a sua aparente singeleza estilística, nele se joga o destino de um homem que viveu a sua vida segundo a sensibilidade.
Está além de todo auê do balonê, evasé e godê...


11. Olga Fernandez

– Seis propostas para o próximo o milênio, de Ítalo Calvino
Seis propostas para o próximo milênio é o testamento artístico de Ítalo Calvino, publicado postumamente. Na verdade, são as cinco conferências que ele faria na Universidade de Harvard, se vivo estivesse, e que ficaram sem ser proferidas: LEVEZA , RAPIDEZ, EXATIDÃO, VISIBILIDADE e MULTIPLICIDADE. A sexta conferência seria CONSISTÊNCIA, jamais escrita.

12. Beatriz Berman
– Inventario, de Mário Benedetti

Como interpretar um novo estilo, como ele poderá chegar até as ruas? Não há nenhuma pista de atitudes nem código de comportamentos que possam ser lidos democraticamente, uma atitude política é a moda decretando o fim do chique burguês. Para a coleção de Mario Benedetti, o esquecimento está tão cheio de memória que às vezes não cabem as lembranças.


13. Claudia Hersz
– O último suspiro do mouro, de Salman Rushdie

Em 1989, o aiatolá Khomeini condenou Salman Rushdie à morte por ter escrito um livro que desagradou aos fundamentalistas islâmicos.
Dez anos depois, a resposta do autor foi o romance com a modelo Padmi Lakshmi: O último suspiro do mouro, com sobreposições de padronagens étnicas, uma defesa contundente do pluralismo e da tolerância, em oposição às pretensas verdades únicas e excludentes.

14. Bia Junqueira
– Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres,
A Paixão Segundo GH, A Bela e Fera, de Clarice Lispector
Bia Junqueiro desfila um coletivo de Clarice Lispector. Renda-se com eu me rendi. É esse o enfoque deste look: vinho tinto em rendas brancas. O babado da barata. A heroína que se perde. A trajetória da heroína de Chacal na obra de Clarice Lispector.

15. Laura Lima
– Os Lusíadas, de Luis de Camões


16. Phillis Huber
– Brasil, pais do futuro, de Stefan Zweig

Zweig colocou os óculos vermelhos de Kant e viu um Brasil róseo, viu beleza na miséria, riqueza no triste, alegria na dor. Depois do sucesso das havaianas, Giselle la Bundchen, o Brasil estapeia a face do primeiro mundo. Pernas de fora, colar e penas os males do Brasil são.


17. Chacal
– Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Foi escrito em 1956.

Agora que o preto é o novo preto ninguém mais entra em pânico por falta de criatividade. Para quem gosta de ousar, as feras estão soltas! E eu sou um tigre! Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores , quem muito se evita, se convive. Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. O diabo existe e não existe? O senhor aprova? Viver é negocio perigoso...

Apresentação: Alessandra Colassanti e Michel Melamed
Texto coletivo: Anna Dantes, Luiza Marcier e Melanie Dimantas com contribuições de Alessandra Colassanti e sugestões fundamentais de Michel Melamed e Chacal
Tradução de Dom Quixote e seleção de texto de Grande Sertão Veredas: Cassiano Vianna
Violino: Raquel Dimantas

Os livros foram selecionados por seus próprios modelos de passarela. O Estrangeiro, foi a opcão de Omar Salomão que não compareceu ao evento. O livro por sua vez foi apresentado pelo malabarista Bruno Ribeiro. Armadilha para Lamartine, escolhido por Raul Mourão (este também desaparecido) foi magnificamente levado a passarela por Cesar Augusto.

contribuição de Philis Uber

26/11
putrification charles bukowski (1986)

of late
i've had this thought
that this country
is going backwards
4 or 5 decades

and that all the
social advancement
the good feeling of
person towards
person
has been washed away
and replaced by the same
old
bigotries

we have
more than ever
the selfish wants of power
the disregard for the
weak
the old
the impoverished
the
helpless

we are replacing want with
war
salvation with
slavery

we have wasted the
gains
we have become
rapidly
less

we have our bomb
its our fear
our damnation
and our
shame

now
something so sad
has hold of us
that
the breath
leaves
and we cant even
cry

A song for Nina

23/11

Voz que ao longe canta
qual as vozes do sonho
água de chocalhos
descendo a montanha.

Outra vez como então
retornas, coração,
a teu amor distante
de estradas e colinas.

Já não será a sombra
dos salgueiros tão fina,
nem o cheiro dos lilases
te andará pela boca.

Já não veremos juntos
o final de tarde,
ou iremos buscar para ti
colméias entre juncos.

O caneco de água mansa
que bebias ansiosa
secará na sombra
triste e solitária.

Julio Cortázar / Cassiano Viana, Novembro de 2006

interno

21/11
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