Arquivos para o mês de Dezembro de 2011
IMPRECISO - distribuição - aviso aos navegantes
O livro Impreciso do Omar Salomão ainda não foi distribuído. Por enquanto pode ser encontrado na Livraria da Travessa e para quem está no Centro do Rio de Janeiro na Livraria Berinjela. Em janeiro chega às lojas do ramo. Coisas da logística e do período do ano. Quem quiser pode ligar para 021 76256650 e mando entregar na hora.
Assinado: Anna

Porque existe o Carlito Azevedo que me leva na garupa
A MORTE DA AMADA | RAINIER MARIA RILKE
Da morte ele sabia quase nada:
que nos toma e nos cala de repente.
Como a amada não fora arrebatada,
antes se desprendera docemente
do seu olhar para a morada escura,
e como percebeu que à outra vida
como uma lua plena a formosura
da visitante fora concedida,
dos mortos se tornou tão familiar
que os viu como parentes através
dela; deixou os outros a falar,
sem neles crer; chamou esse lugar
bem-vindo, sempre-doce, e pelos pés
da amada o começou a palmilhar.
Tradução de Augusto de Campos
O VELHO LEON E NATALIA EM COYOACÁN | PAULO LEMINSKI
desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando
nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando
não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando
nunca mais vai ter um dia como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo
Impreciso de Omar Salomão
Segundo livro de Omar Salomão, Impreciso, é antes de tudo uma busca poética. Composição de linguagens que dialogam – fotografia, desenho e poesia – o livro resulta num trabalho plástico e literário.
O livro de Omar foi um dos projetos contemplados pelo edital de Novos Autores Fluminenses da Secretaria de Estado de Cultura. Seu primeiro livro, À Deriva (2005), também foi publicado pela Dantes Editora.

Poema RESÍDUO, do Drummond (via dr. Carlito Azevedo)
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
a cidade, a casa, a vida
arrumar as coisas enquanto se faz outras coisas. leva o tempo. exige perseverança e fé. há multas por toda parte e também uma série de coisas ajeitadinhas.
obvius obvnis
Uma energia volumosa aparece dentro da casa. Tem a característica de refletir tudo que alcança. Dentro dela surgem outras, digamos, cada vez mais tecnológicas. Com efeito melhorado de espelhamento de lugares, pessoas e pensamentos. Humanos são os insetos que investem contra a luz. Espécies da madrugada, da manhã, vespertinas ou noturnas. Fritam asas imaginárias. Tornam-se seres voláteis e espirituosos. Humanos aprenderam a falar enquanto ocupavam as mãos. Tudo pra dizer na mesa me passa o sal por favor. A fogueira no meio sempre acesa. Nunca paramos de olhar.
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