Arquivos para o mês de Agosto de 2006
sobre o livro do luiz zerbini que será lançado no sábado no parque lage

Explica o pensamento do artista e não nos apresenta nenhuma explicação.
Ignora o leitor mas é muito generoso. O visitante, assim, lê o trabalho .
Convida para uma exposição dentro das invenções da mente, estampada nas páginas do que é um livro agora.
Parece um sonho e faz sentido. O galho de uma árvore visto numa esquina faz sombra nas folhas mais adiante.
Se é uma biografia significa que é tudo verdade?
Um texto sublinhado do Marcel Duchamp vira colagem ou vira rasura.
Meu raio verde - Julio Cortázar + Cassiano Viana

Tradução: Cassiano Viana
Porque "O raio verde", novela pouco lida de meu mestre e xará, me contou aos nove anos que se olhássemos o pôr-do-sol em um horizonte marinho, se o céu é diáfano e se no último momento não atravessa uma vela de barco, uma revoada de pássaros ou uma nuvenzinha caprichosa, com o último segmento incandescente afundando-se na linha do azul veremos surgir um instantâneo e prodigioso raio verde.
Eu vivia muito longe do mar e o sol de minha infância se punha entre alambrados, casas de ladrilhos e salgueiros chorões. Subindo a louça de minha casa esperei ingenuamente o milagre do raio verde, e vi apenas fracas antenas de rádio; quando vinte anos depois comecei a cruzar o Atlântico e o Pacífico, muitos entardeceres me vieram espreitar algo que nunca de realizou ainda que as condições parecessem, impecáveis, e como ocorre na mal chamada maturidade, perdi a fé no raio verde e no visionário que me havia descrito e de alguma maneira prometido.
Ontem, do mirante do aqueduto Luis Salvador, olhei uma vez mais o sol afundar no mar. Um amigo mencionou o raio verde, e sofri antecipadamente pelas crianças presentes que o esperaram com a mesma ansiedade que eu o havia desejado em meu absurdo horizonte suburbano, agora seria pior, agora as condições estavam dadas e não haveria raio verde, os pais justificariam de qualquer maneira o fiasco tentando consolar aos pequenos; a vida – assim a chamam – marcaria outro ponto em seu caminho até o conformismo. Do sol ficava um último, frágil segmento alaranjado. O vimos desaparecer por trás da perfeita beira do mar, envolto no halo que ainda duraria alguns minutos. E então surgiu o raio verde, não era um raio sem um fulgor, uma faísca instantânea em um ponto como de fusão alquímica, de solução heracliteana de elementos. Era uma faísca intensamente verde, era um raio verde ainda que não fosse um raio, era um raio verde, era Julio Verne murmurando-me ao ouvido: “O viste enfim, grande tonto?”
Um poeta romântico escreveria isto melhor, don Gaspar ou Shelley. Eles viviam em um sonho diurno, e o realizavam em seus poemas. A flor azul de Novalis, a urna grega de John Keats, o perfil dos deuses de Holderlin. Meu raio verde se volta ao nada no mesmo instante que o digo; mas era ele, era tão verde, era enfim meu raio verde. De alguma maneira soube ontem, que muito do que defendo e que outros crêem quimérico está aí em um horizonte de tempo futuro, e que outros olhos o verão também um dia.
Cortázar amanhã faria 92 anos. Nesse pequeno texto, pouco conhecido, nunca traduzido, Julio faz uma referência ao "Le rayon vert" (1882), do xará Julio Verne, um de seus autores favoritos.
Sobre a lógica da arrumação dos livros nas estantes. por Suzana Macedo
Passei uma temporada fora de casa e, na volta, de presente, meu marido tinha arrumado todas as estantes de livros.
Desde o primeiro momento, fiquei na dúvida sobre se aquela teria sido, de fato, uma boa idéia. Mas à medida que o tempo foi passando, fui tendo a certeza de que não, aquela não tinha sido uma boa idéia. Pelo menos, não pra mim.
Nunca fui especialmente boa em encontrar livros nas estantes. Meu olho passa três vezes pelo lugar onde o livro está e eu não enxergo. Mas, antes desta arrumação, eu tinha uma espécie de faro que me levava, senão ao lugar exato, pelo menos à prateleira; senão à prateleira, pelo menos à estante certa onde eu poderia encontrar o livro que eu estava procurando. Ou seja: a minha intuição estava afinada com aquela (des)organização. Agora, não. Um ano depois, eu continuo completamente desorientada.
Não é que as mudanças tenham sido tão radicais. Mas um pequeno deslocamento - no espaço ou na lógica – pode produzir resultados fatais.
Naquela época, como agora, os livros estavam organizados por assunto e em ordem alfabética.
À seção de filosofia - a primeira da estante, começando do canto superior esquerdo, de onde se começa a ler uma página escrita no nosso alfabeto - seguia-se a seção de religião.
Com a arrumação, os livros sobre religião foram pra estante branca, às minhas costas.
Na estante branca, às minhas costas, pra onde foram os livros de religião, antes ficavam os livros sobre cinema que, agora, por sua vez, estão na estante da sala, junto com os livros de arte.
Depois de Religião vinha a seção Ciências para não Cientistas e, em seguida, Ficção Científica. Daí, emendava com literatura estrangeira e depois, nacional. Isto na parede à direita.
Os livros que ficam na estante à minha esquerda - ensaios, biografias, entrevistas etc. - antes se dividiam em: Livros Que Vieram da Praça São Salvador; Livros Que Eu Herdei, Livros da Ed. Perspectiva; Livros da Época em Que Eu Dei Aula.... Agora eles estão separados por área: música, artes plásticas, teatro, literatura.... Melhorou, teoricamente. Mas, na prática, piorou.
Depois da arrumação, os autores latino-americanos deixaram a literatura estrangeira e passaram a constituir uma categoria separada. Com isto, o Juan José Saer que era o primeiro da letra S, em literatura estrangeira, vizinho da Nathalie Sarraute, agora está ao lado do Ernesto Sábato, num livro difícil de classificar.
Nas prateleiras que ficam no quarto de dormir, antigamente, e não por acaso, ficavam apenas os livros de poemas. Na volta da viagem, livros em dois volumes, ou com lombadas a partir de 3 cm passaram a ocupar uma destas prateleiras.
Às vezes, a posição de um livro na estante é apenas função do seu tamanho ou peso. Por isto as coleções de capa dura estão em prateleiras separadas, agrupadas pelo critério “Coleções de Capa Dura”. Sei que agrupar livros por tamanho pode parecer estúpido. Mas quando eu penso num livro que eu tenho, em geral, sei como ele é, fisicamente, mesmo quando é um livro que eu não li. E acho mais fácil procurar um livro de bolso em meio a outros livros de bolso de qualquer gênero, do que entre livros do mesmo gênero, de tamanhos variados.
Me lembro também que, antes, os livros de correspondências ficavam juntos. Agora não. Agora, o livro de cartas da Hannah Arendt pra Mary McCarthy está ao lado d’A Origem do Totalitarismo e não mais do livro de cartas da Elizabeth Bishop, por exemplo, ou das correspondências de Cabral com Bandeira e Drummond.
Se bem que se a gente pensar que a Elizabeth Bishop se correspondia com a Mary McCarthy e que a Mary McCarthy, por sua vez, se correspondia também com a Hannah Arendt, de algum modo, elas estão próximas, mesmo que em estantes separadas.
Sei que os meus critérios de organização são por demais particulares, e que, provavelmente, as estantes estão mais bem arrumadas agora. ( Se bem que, desde a arrumação, muita coisa já degringolou, naturalmente ).
Mas onde será que foi parar a seção Ciências para Não Cientistas, que eu não consigo encontrar? Stephen Jay Gould, Oliver Sacks, Ilya Prigogine, O Tao da Física... Em que nicho eles se meteram? Sob que lógica se agruparam? Em que estante se esconderam?
E o meu marido não está.
Da série: Inícios Inesquecíveis
2.
“ Chamai-me Ismael. Há alguns anos – quantos precisamente não vem ao caso – tendo eu pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo. É a minha maneira de dispersar o spleen e de regular a circulação de sangue. Sempre que sinto na boca uma amargura crescente, sempre que há em minha alma um novembro úmido e chuvoso, sempre que dou comigo parando involuntariamente diante de empresas funerárias ou formando fila em qualquer enterro e, especialmente, sempre que a minha hipocondria me domina a tal ponto que necessito apelar para um forte princípio de moral a fim de na sair deliberadamente à rua e atirar ao chão, sistematicamente, os chapéus das pessoas que passam...então, calculo que é tempo de fazer-me ao mar, e o mais depressa possível. O mar é meu substituto para a pistola e a bala. Com alarde filosófico Catão se arremessou sobre a sua espada; quanto a mim, embarco tranqüilamente. Não há nisso nada de surpreendente. Se a maioria dos homens o soubesse, fosse qual fosse a sua categoria social, compartilharia comigo, numa época ou noutra, os sentimentos que o oceano me inspira (...)”
MOBY DICK, Herman Melville, trad. Berenice Xavier, Ed. Francisco Alves.
por Sergio Mekler
Da série: Inícios Inesquecíveis. por Suzana Macedo e quem mais se interessar.
1.
“Dessas costas vazias me restou, sobretudo, a abundância de céu. Mais de uma vez me senti diminuído sob esse azul dilatado: na praia amarela, éramos como formigas no centro de um deserto. E se, agora que sou velho, passo meus dias nas cidades, é porque nelas a vida é horizontal, porque as cidades dissimulam o céu. Lá, de noite, ao contrário, dormíamos, a céu aberto, quase achatados pelas estrelas. Estavam como ao alcance da mão e eram grandes, inumeráveis, sem muito negrume entre uma e outra, quase faiscantes, como se o céu tivesse sido a parede perfurada de um vulcão em atividade que deixasse entrever, por seus orifícios, a incandescência interna.(...)”
O ENTEADO, Juan José Saer, trad. José Feres Sabino, Iluminuras.
You know you ain’t getting younger… _ por Melanie Dimantas
O olho parado na tarde suspensa. Ela ouve uma música de quando era jovem e ansiava pelas esquinas do mundo, bastava virá-las para se surpreender com o futuro. Eram tantos possíveis futuros! Eram? Escolheu um. Nem sabe se escolheu, mas agora é tarde para especular. As coisas estão aí, filhos e pensamentos, o corpo e suas marcas. E estes instantes de olho parado só trazem a urgência de sair de si mesma e inventar-se
Tabla de contenidos / A tentação do livro

Cassiano Viana
Na vida as possibilidades são tão variadas quanto uma história onde é permitido ao leitor interferir em seu desenvolvimento até chegar ao final surpreendente. Aqui se encerra o problema dessa inusitada equação: o desenrolar do enredo quase nunca depende unicamente dos caprichos e da vontade de um só autor.
Para mim, a vida é formada de trechos escritos por vários autores, um por capítulo, ou, simultaneamente. É como se Shakespeare e Cervantes escrevessem uma mesma novela a quatro mãos com Joyce, Kundera, Asimov. Às vezes a vida é dantesca e, a bem da verdade, maior parte do tempo, pouco se configura num conto-de-fadas, no pequeno príncipe de Saint-Exupery ou numa das inúmeras fábulas dos irmãos Grimm.
Há pouco para lembrar antes do primeiro livro. Depois ficou mais fácil entender e tentar escrever a minha própria história. Os caminhos são diversos, e agora outros.
Duas vezes Borges:
Um:
“Sometimes, looking at the many books I have at home, I feel I shall die before I come to the end of them, yet I cannot resist the temptation of buying new books. Whenever I walk into a bookstore and find a book on one of my hobbies - for example, Old English or Old Norse poetry - I say to myself, “What a pity I can't buy that book, for I already have a copy at home”.
Dois:
"Mi destino sigue siendo un misterio. Estoy ciego, la mayoría de mis contemporáneos han muerto; soy un hombre tímido y desde el año 55 ya no puedo leer, tengo que recitar cosas que se me ocurren... Cuando estoy solo, continuamente estoy tramando poemas, cuentos, fábulas, porque tengo que poblar mi soledad.
[si pudiera volver a ver], yo volvería a leer algunos de los pocos libros que hay aquí; quizás saldría a la calle a reencontrarme con algún recuerdo de Buenos Aires. Miraría al espejo para ver que cara tengo. Aunque no, pienso que es una suerte para mí imaginarme con la cara que tuve a los 55 años.
Desgraciadamente tengo ochenta y tantos años. ¿Qué otra cosa puedo hacer que no sea escribir y soñar...?"
[1]Jorge Luis Borges, “The Riddle of Poetry”.
[2]Jorge Luís BORGES, trechos da entrevista "Borges, el eterno", realizada
Cassiano Viana. 33 anos. http://banzaibanzobanzo.blogspot.com/.
UM DIA DE LIVRO NO CINEMA - 14 de agosto


No dia 14, na ressaca da Flip, terá pela segunda vez o evento:
Um dia de livro no cinema.
Que é um evento para integrar as atividades da Dantes livraria e o cinema Odeon BR.
Realizamos um bota-fora no deck do ateliê culinario a partir das 15 horas.
E na sessão das 20:30 sempre um filme relacionado a livros. Desta vez teremos Lolita do Stanley Kubrick.
LANÇAMENTO DE LIVRO
lançamento do livro de contos que inspirou o primeiro filme brasileiro DOGMA 95.
a partir das 19:30
"Velório em Família" de Rosario Boyer
eu dantes livraria a editora
Num procedimento semelhante ao exame de fezes ou a investigação do lixo de uma casa, reparar nas estantes de um sebo diz muito sobre nossa sociedade.
Cemitério de elefantes ali estão todas as Barsas. E tesouros de crianças que há muito não sonham com piratas. Sabe-se quanto de latim já foi gasto e como era em francês que se amava. Último tango em Paris, O Poderoso Chefão, Senhor Embaixador representam apogeu e queda de impérios de papel. Hoje vê-se blocos de laminação fosca e vernizes especiais, veículos do que chamam conteúdo, conceito e lição de atitude. Ancoram nos diques das livrarias de usados, vindos da esteira rolante dos lançamentos, ainda reluzentes, quase novos, sem ao menos uma encarnação na alma do leitor.
Os sebos são o final da linha. Acumulam em suas estantes milhares de histórias sobrepostas. Além do que um livro encerra com sua capa, há o que ele revela em seu percurso: o salário de um professor, a bolsa de estudos cortada, a sabedoria e a ignorância do humilde ao vaidoso, a vida, a viagem, a falência e o falecimento. Uma teia empoeirada de tempo que persiste distante da mira dos governos, mas à serviço da população carente e ainda curiosa em adquirir acervo único, barato ou esgotado.
O comércio de livros usados no Rio de Janeiro é feito através de aproximadamente 60 sebos e de alguns vendedores de rua, alheios entre si. Mesmo em sua insignificância, diante do modelo livreiro em vigor, é um mercado altamente competitivo. Boas bibliotecas, fonte de matéria prima, estão em extinção. O trabalho em si é fisicamente esgotante. Comprar, carregar, organizar livro por livro contribui para que cada livreiro isoladamente seja o último elo de uma corrente própria de histórias, coincidências e negócios.
A Amazon Books ensinou o quanto o livro é fomentado. Se todos os assuntos cabem num livro ele é o melhor acesso para todas as pessoas. Da que almeja aprender esgrima em dez lições a que deseja um namorado. Um portal de janelas para as mentes que procuram, no universo já descrito, algum caminho em qualquer nível de interesse e importância.
Para o consumidor, o indivíduo da classe média, qualquer caminho já pavimentado é o possível. O livro hoje tem que brilhar, piscar e depende de alguns assessores para se defender na selva da venda e da imprensa.
Muitas máquinas de impressão em quatro cores separadas já foram aposentadas. Fotolito é quase fóssil. O mercado editorial também avança e desperdiça.
E o que somos? Um país de leitores estimulados? De editoras representativas em todos estados? Bibliotecas que abrigam os melhores livros de todos os tempos? Algum governo já recorreu aos sebos para preencher as lacunas de suas bibliotecas?
Livros atravessam gerações, sobrevivem aos seres humanos, são herdados ou jogados fora. São guardados na memória, no hd ou numa história que poderá ser contada e recontada mil vezes em mil línguas diferentes. E ainda podem ser feitos com muito ou pouco dinheiro, mas publicados para que sejam usados, usados e usados.
Por Mês
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