Arquivos para o mês de Setembro de 2006

Da série: parece (o João Moreira Salles) mas não é

29/09
... tinha uma aguda consciência cívica e social. Independentemente rico, ele relutava em dissipar suas energias nos chás elegantes e jantares excêntricos da sociedade, enquanto as atrizes, cavalos de corrida e diversões afins não lhe interessavam mais. Ele fora picado pela mosca-azul da ética e era um reformador de forma alguma pretensioso, embora seu trabalho tivesse sido fundamentalmente na linha de contribuições para revistas e periódicos trimestrais mais profundos e para a publicação autoral de livros escritos de forma inteligente e brilhante sobre as classes trabalhadoras e os moradores de bairros miseráveis.
Mas... não era um doente nem fanático. Ele não perdia a cabeça com os horrores que encontrava, estudava e expunha, nunca se deixando levar por um entusiasmo juvenil. Seu humor o salvava, assim como sua ampla experiência e seu temperamento filosófico conservador. Tampouco tinha qualquer paciência com teorias de reforma imediata. Da forma que ele via, a sociedade só melhoraria através de processos de evolução dolorosamente lentos e arduamente dolorosos. Não havia atalhos, nem renovações repentinas. A melhoria da humanidade tinha de ser trabalhada na agonia e na miséria como todas as melhorias sociais passadas haviam sido resolvidas.

Descrição de Carter Wilson, um lutador de boxe sociólogo no conto O benefício da dúvida escrito por Jack London, traduzido por Jorge Ritter no livro " Por um bife e outras histórias de boxeadores". Editora Arte e Ofícios. Porto Alegre, 2006

da série: passagens inesquecíveis

26/09

Havia duas mulheres na sala. As duas estavam nuas mas só uma estava morta.

Dashiell Hammett

DA SÉRIE: INÍCIOS INESQUECÍVEIS

24/09
O deserto é bem mais que areias escaldantes – que se pense o que ele é para o beduíno, a legião estrangeira, o pequeno príncipe. E isso, é claro, porque não cabe aqui o deserto adjetivo, como não se pensa no deserto glacial. O deserto é aquele em que se fala para o vazio, mas não se cala, aquele aonde se retira o santo, o perseguido pelos demônios, o doente da humanidade, o sôfrego de deus. O deserto é onde não corre o tempo, e é no deserto o domínio do Tempo, ele abole a história e a bússola, o cronômetro aqui não terá muito o que marcar.
No deserto, homens e caravanas desconhecem o norte e osul, têm a sabedoria de nunca chegar a parte alguma. O vento apaga e enterra diariamente pegadas e traços. Um punhado de areia que se joga para o alto modifica o deserto.

O DESERTO E AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO. De Jorge Bastos. Hólon Editorial, 1991

digiri - por Anna

22/09
Na madrugada solitária pessoas escrevem poesias.
Um menino da rocinha queria voltar pra casa e não podia.
Chorou, sentiu saudades da mãe e dormiu numa caminha ao lado do meu filho.
Abraçou uma girafa que não era sua, mas igual a que vira no zoológico.
Poesia, dizem, é saber da favela na avenida paulista.
O que acontece aqui em casa é mero dia-a-dia.


Notícias da Babel - por Anna Dantes

20/09

A nossa editora está se animando para trabalhar em seu próximo livro.

Good night moon room - tradução para o menino Josué - por Anna Dantes

18/09

Existe um telefone
No grande quarto verde
E um balão vermelho
E um quadro na parede
De uma vaca saltando
E 3 ursos conversando
E dois gatos fazendo miau
E um par de luvas no varal
E uma casa de brinquedo
E um ratinho do tamanho de um dedo
Um abajur, uma escova e um mingau esfriando
Uma vovó coelha sentada tricotando
boa noite telefone
Boa noite par de meias
Boa noite quarto verde
Boa noite lua cheia
Boa noite vaca muuu
Boa noite abajur
Boa noite balão
Boa noite urso, ursinho e ursão
Boa noite para os gatos fazendo miau
Boa noite para as luvas no varal
Boa noite relógio na lareira
Boa noite relógio na cabeceira
Boa noite casa de brinquedo
Boa noite ratinho do tamanho de um dedo
Boa noite tapete
Boa noite pra ninguém
Boa noite mingau de leite
Boa noite pro nenem
Boa noite estelar
Boa noite ar
Boa noite para o barulho de qualquer outro lugar

Trinta anos do Poema Sujo - Cassiano Viana

05/09

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
                                              mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já 


                      um prato de louça ordinária não dura tanto
                      e as facas se perdem e os garfos
                      se perdem pela vida caem
                      pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira


e as grossas orelhas de hortelã
                     
quanta coisa se perde
                      nesta vida
                      Como se perdeu o que eles falavam ali
                      mastigando
                      misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
                tão reais que
                se apagaram para sempre
      
                                                         Ou não? 


Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
                       ou dentro de um ônibus
                       ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
                       perfeitamente fora
                      do rigor cronológico
                      sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
                        voais comigo
                        sobre continentes e mares 


E também rastejais comigo
                       pelos túneis das noites clandestinas
                             sob o céu constelado do país
                             entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
                             vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
                             dobrais comigo as esquinas do susto
                             e esperais esperais
que o dia venha
 


                             E depois de tanto
                            que importa um nome?

Ferreira Gullar. Publicado em 1976, escrito durante o exílio em Buenos Aires. "Um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre". A José Olympio lançou ontem uma edição comemorativa, com um cd encartado, com a leitura do poema pelo próprio Gullar.

Por Mês